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11 abril 2015

O Conto dos três irmãos J.K. Rowling


Era uma vez três irmãos que caminhavam por uma estrada solitária e sinuosa ao crepúsculo, a certa altura, os irmãos chegaram a um rio demasiado fundo para passar a pé e demasiado perigoso para atravessar a nado. Contudo, esses irmãos eram exímios em artes mágicas, por isso limitaram-se a agitar as varinhas e fizeram aparecer uma ponte sobre as águas traiçoeiras. Iam a meio desta quando encontraram o caminho bloqueado por uma figura encapuzada. E a morte falou-lhes. Estava zangada por ter sido defraudada em três novas vítimas, pois normalmente os viajantes afogavam-se no rio. Mas a morte era astuta.
Fingiu felicitar os três irmãos pela sua magia e disse que cada um deles havia ganho um prêmio por ter sido suficientemente esperto para a evitar.
E assim, o irmão mais velho, que era um homem combativo, pediu uma varinha mais poderosa que todas as que existissem: uma varinha que vencera a Morte! Portanto a Morte foi até um velho sabugueiro na margem do rio, moldou uma varinha de um ramo tombado e deu-a ao irmão mais velho.
Depois, o segundo irmão, que era um homem arrogante, decidiu que queria humilhar ainda mais a Morte e pediu o poder de trazer outros de volta da Morte. Então a Morte pegou numa pedra da margem do rio e deu-a ao segundo irmão, dizendo-lhe que a pedra teria o poder de fazer regressar os mortos.
E depois a Morte perguntou ao terceiro irmão, o mais jovem, do que gostaria ele. O irmão mais novo era o mais humilde e também o mais sensato dos irmãos, e não confiava na Morte. Por isso, pediu qualquer coisa que lhe permitisse sair daquele local sem ser seguido pela Morte. E esta, muito contrariada, entregou-lhe o seu próprio Manto de Invisibilidade. Depois a Morte afastou-se e permitiu que os três irmãos prosseguissem o seu caminho, e eles assim fizeram, falando com espanto a aventura que tinham vivido, e admirando os presentes da Morte.
A seu tempo, os irmãos separaram-se, seguindo cada um o seu destino.O primeiro irmão continuou a viajar durante uma semana ou mais e, ao chegar a uma vila distante, foi procurar um outro feiticeiro com quem tinha desavenças. Naturalmente, com a Varinha do Sabugueiro como arma, não podia deixar de vencer o duelo que se seguiu. Abandonando o inimigo morto estendido no chão, o irmão mais velho dirigiu-se a uma estalagem onde se gabou, alto e bom som, da poderosa varinha que arrancara à própria Morte, e que o tornava invencível.Nessa mesma noite, outro feiticeiro aproximou-se silenciosamente do irmão mais velho, que se achava estendido na sua cama, encharcando em vinho. O ladrão roubou a varinha e, à cautela, cortou o pescoço ao irmão mais velho.Assim a Morte levou consigo o irmão mais velho.
Entretanto, o segundo irmão viajara para sua casa, onde vivia sozinho. Aí, pegou na pedra que tinha o poder de fazer regressar os mortos, e fê-la girar três vezes na mão. Para seu espanto e satisfação, a figura da rapariga que em tempos esperava desposar, antes da sua morte prematura, apareceu imediatamente diante dele.No entanto, ela estava triste e fria, separada dele como que por um véu. Embora tivesse voltado ao mundo mortal, não pertencia verdadeiramente ali, e sofria. Por fim o segundo irmão louco de saudades não mitigadas, suicidou-se para se juntar verdadeiramente com ela. E assim a Morte levou consigo o segundo irmão.
Mas embora procurasse durante muitos anos o terceiro irmão, a Morte nunca conseguiu encontra-lo. Só ao atingir uma idade provecta é que o irmão mais novo tirou finalmente o manto de invisibilidade e deu ao seu filho. E então acolheu a Morte como uma velha amiga, e foi com ela satisfeito e, como iguais, abandonaram esta vida.


30 agosto 2014

“Conselhos de Amiga”

A imagem abaixo inspirou Lunna a escrever em 2 horas o texto abaixo, já postei alguns dos maravilhosos poemas dela aqui, e confesso que fiquei admirada com a beleza e perfeição desse texto, ainda mais por Frida ser uma das personagens.


Autora: Lunna Marcela A. Campos


A noite caia como um véu estrelado tornando o pequeno vilarejo um pouco menos miserável. A mulher que caminhava com certa dificuldade se esgueirava pelos cantos das paredes da casa ora nelas se apoiando levemente, ora se recostando nelas. Ela olhou a sua volta e voltou a caminhar assim que avistou uma placa esculpida em madeira sob um lampião a óleo e um moço atarracado o acabava de acender-lhe as chamas. Assim que chegou de fronte a porta rústica e esburacada olhou mais uma vez a placa acima de sua cabeça confirmando; Estalagem “Viveram Felizes Para Sempre”, um leve sorriso escarnecedor cingiu a boca rispidamente enquanto ela adentra porta a dentro arrumando o xale vermelho sobre seus ombros.

O interior da local estava escuro e levou alguns segundos para que ela acostumasse seus olhos e pudesse identificar suas amigas numa grande mesa posta em um canto discreto. Caminhando lentamente ela finalmente esta frente a frente aquelas que sendo suas amigas lhe enviaram tal convide com as seguintes premissas; Venha ter conosco amiga Frida, todas nós precisamos de você com urgência!. Tinha sido uma longa jornada porém havia chegado e agora estava ali sentada encarando suas amigas com olhar indagador.

- Então? Falou enchendo uma caneca de vinho entregue pelo estalajadeiro assim que ela se sentou - Posso enfim saber qual o motivo de tanta urgência? E assim todas começaram falando ao mesmo tempo e logo a algazarra foi interrompida por Frida, Calma uma de cada vez - Branca de Neve fala você primeiro, por favor, as demais aguardem!

-Frida que bom vê-la bem amiga, olha estou numa situação dificílima, meu pai se casou de novo após a morte de mamãe e agora meu pai também morreu – Branca de Neve olhava aflita para Frida e continuou - Ela é uma mulher belíssima, altiva e muito poderosa e eu a admiro muito, tentei me aproximar dela, ser amiga dela nada adiantou – Branca suspirava - não sei mais como agir para conseguir romper com esta condição lamentável que se instalou entre nós duas – pegando na mão de Frida disse – Me ajuda amiga o que eu faço para me entender com ela? Tenho medo de morrer sem me entender com ela e hoje recebi uma informação sigilosa que corro perigo de vida e minha morte está marcada para esta noite.

As mãos de todas as moças tremiam enquanto levavam os copos de vinho aos lábios e as jarras eram cheias sucessivamente. Frida olhou para Cinderela e fazendo um gesto disse – Fale você agora! – enquanto bebia seu vinho Frida mantinha o cenho franzido e alisava distraidamente as flores em seus cabelos.

- Estou apaixonada por um homem amiga não simples homem, mas um príncipe que conheci na floresta, eu e ele passamos um dia maravilhoso, foi loucura total! – falou baixando os olhos e soltando uma risadinha – Sabe teve magia, química, física e biologia, nos entregamos um ao outro sem pensar em nada nem em ninguém. 

Naquele dia eu havia me arrumado muito bem com o vestido e as jóias ainda me restavam da herança de minha mãe. – Os olhos de Cinderela brilhavam perdidos nas lembranças da tarde de amor – Ele partiu para o castelo e prometeu que mandaria me convidar para um baile onde me apresentaria a seus pais e toda a corte como sua futura esposa – Cinderela agora chorava.

- Não consigo ver onde está o seu problema, Cindy.

- Não? Cheguei a casa aquela noite como sempre fazia, me esgueirando pelos cantos sombrios, mas fui descuidada, pois estava com a cabeça nas nuvens daquela vez, tinha sido tão intenso! - Cinderela se perdia em seus devaneios a todo instante - Enfim amiga fui pega pela minha madrasta que me confiscou meu pequeno tesouro, agora não tenho nada, olhem para mim? – falou Cinderela apontando os pés descalços, os andrajos remendados e sujos de borralhos, os cabelos desgrenhados e as mãos cheias de calo.

Realmente estava uma lástima pensou Frida – porem apenas disse – continue?!

Amiga e não é apenas isso, eu imaginava que desejaria vê-lo novamente e menti para ele, meu nome e todo o resto como sempre faço e nunca antes havia me dado problemas, mas agora eu desejo muito uma chance com meu príncipe encantador e a festa é esta noite.

- Entendi amigas – e erguendo a jarra de barro no ar gritou – mais vinho, por favor! – 
Bebi porque queria afogar minhas mágoas, mas agora as coisas malditas aprenderam a nadar. 

Quando Frida falava estas coisas as moças davam risadas apesar e toda preocupação delas. Frida era muito admirada por todas.

-Vamos Bela Adormecida comece a falar, sou toda atenção, mas peço que não se demorem, pois Diego me espera na entrada da vila, sabem como é nosso tempo juntos é sagrado para mim, dos meus acidentes ele é o meu predileto e mais importante.

Todas sorriram concordando e Bela começou a falar.

- Olha Frida como você deve se recordar hoje é meu aniversário de dezesseis anos e tem aquela maldição que fala que vou dormir o sono eterno e até agora não conheci ninguém para me dar o beijo e me salvar, e olha que procurei pelos quatro cantos deste e de muitos outros reinos. Meu pai e minha mãe estão insuportáveis, querem me manter trancada a quatro chaves no castelo e se eu quero sair tem que ser escondida. Agora me digam como eu poderia conhecer algum amor verdadeiro se nem de casa saia? Eu odeio meu pai e minha mãe e eu estou seriamente desconfiada que eles pretendam é me matar! Amiga acredite em mim.

- Sim acredito em você Bela assim como também acredito nas outras, pois sei que não há nada escondido; se houvesse eu veria. 

- Muito bem, vamos lá! - Serei breve e sucinta prestem bem atenção em minhas palavras; - Tomando mais um gole falou disparou – Branca você vai para o castelo e vá ao encontro de sua madrasta nos aposentos dela, dispa-se diante dela, liberte-se de todo receio e diga-lhe todo amor que sua alma carrega por ela. Fale sem meias palavras ou verdades de seus sentimentos e coma a maça que ela te oferecer sem medo de ser feliz.

- E você Cinderela - olhou para a amiga – também deixe de se auto-afirmar em coisas tão efêmeras como roupas e jóias, por acaso quando você e seu príncipe se amaram você estava vestida ou ele? Eram os dois príncipe e princesa ou homem e mulher? - Vá agora para o castelo e diga tudo ao seu amado e se ele te amar vai lhe amar da mesma forma que antes, se desistir de você é porque não te ama. 

- Bela minha flor, deixe imediatamente esta sua vida parasita e vá agora a casa das mulheres tecelãs aprender a fiar, tenho certeza que isso resolve seu problema imediato, afinal somente uma princesinha mimada iria espetar o dedo em uma fiandeira tão rudimentar.

E levantando-se chamou as amigas agora venham aqui perto – ordem prontamente atendida por todas – Frida pegou uma navalha sobre a mesa e chegou bem perto das amigas.

– Branca assuma sua homossexualidade e seja feliz – falou enquanto passava a navalha sobre os cabelos dela deixando os cabelos de Brancos bem curtinhos.

- Cindy você é livre para viver plenamente sua sexualidade sem necessidade de tentar ser quem você não é – cortou a blusa de cinderela que em trapos caiu ao chão e com um carvão que estava sobre a mesa Frida escreveu na pele da amiga – Meu corpo minhas regras. – Sua melhor roupa Cindy!

- E você Bela, tome para si este livro e leve-o com você e o leia quando for ter com as tecelãs do reino tenho certeza que tanto você quanto elas vão fazer muito bom uso dele.

Bela pegou o livro nas mãos e leu as letras douradas na capa preta do volume, “Maquiavel”

Frida continuou falando; - amigas lembrem-se que eu apenas pinto a mim mesma porque sou o assunto que eu mais conheço, então dediquem o vosso tempo buscado conhecer a si próprias.

Dizendo isso Frida levantou-se e saindo da taverna sumiu na noite escura enquanto as outras três mulheres se despediam e saiam em busca de suas vidas transformadas por aquela mulher.


30 junho 2014

O meu estuprador...

"Josielma Ramos"

O meu estuprador talvez seja aquele senhor que faz bicos de pedreiro nas casas dos vizinhos, aquele que meu pai contratou para reformar uma parede lá de casa, ele me tocou quando eu tinha oito anos, apenas tocou com aqueles dedos imundos, será que isso é estupro? Eu não queria que ele me tocasse, eu não sabia o que ele estava fazendo, e fiquei com medo de contar para minha mãe.
O meu estuprador talvez seja o meu vizinho, o marido da melhor amiga da minha mãe, aos doze anos eu cuidava do bebê deles durante o dia, e o marido dela chegava primeiro, quando eu ia levar o bebê no momento da troca de colo ele tocava meus seios, eu não dizia nada, apenas ia embora correndo, todos os dias durante um tempo, até que disse para minha mãe que não tinha mais paciência para cuidar do bebê, será que se eu contasse para minha mãe ela acreditaria? Eu nunca saberia, pois tinha medo de contar.
O meu estuprador talvez seja o rapaz com quem perdi minha virgindade, eu disse não e mesmo assim ele me forçou, namorei com ele, porque cresci com minha mãe dizendo que nunca arrumaria um marido não sendo virgem, “Que homem vai te querer se você já foi de outro” dizia ela, e me forcei a um relacionamento longo na esperança de um dia me casar com ele, porque se ele terminasse comigo com certeza nenhum outro iria me querer.
O meu estuprador talvez seja o cara que passa e buzina toda vez que faço caminhada, ou o que me chama de gostosa quando passa por mim na rua, ou o que me beijou a força em uma festa, ou talvez o que me encochou dentro do ônibus, o meu e o de tantas meninas que nem se descobriram ainda, talvez não tenham onde se apoiar, talvez viverão o resto de suas vidas com medo e se escondendo, com medo de qualquer sombra que passe por elas, irão olhar todos os rostos, em busca de nunca mais encontrar o seu estuprador.
Não eles nunca serão os “Meus” estupradores, são apenas homens que tentaram me resumir a nada e que não tiveram sucesso nisso, sou mulher, sou forte, sou única, ninguém me faz mal se eu não permitir, ninguém me faz ser menos do que sou se eu não deixar e nunca deixarei.

08 junho 2014

Colocar a chaleira no fogo

"Josielma Ramos"

Era uma manhã de setembro, olhei pela janela e a chuva caia preguiçosamente, calcei meus chinelos e andei lentamente até o fogão, coloquei a chaleira no fogo e esperei a água esquentar enquanto continuava a olhar pela janela, de repente ouvi uma batida em minha porta, o que era estranho já que sempre consigo ver da janela quando alguém passa, e naquele momento ninguém havia passado, mesmo assim fui em direção à porta e a abri, para minha surpresa e total espanto não havia ninguém lá, apenas um gato pardo e gordo, nunca fui muito fã de gatos, então fechei a porta depois de dar mais uma olhada em cada direção e me certificar que não havia mesmo ninguém por ali, malditas crianças, é com certeza deviam ser as crianças dos vizinhos tentando me pregar uma peça.
A chaleira apitou, corri até o fogão e a peguei, preparei as minhas ervas dentro da minha xicara favorita e preparei o meu chá, nos poucos instantes antes de levar a xicara a boca alguém batia na porta novamente, larguei meu chá em cima da mesa e fui até a porta, mais novamente não havia ninguém lá, teria que ter uma séria conversa com os pais daquelas crianças, enquanto eu olhava para os dois lados da viela o gato pardo e gordo que ainda estava na minha porta, entrou correndo para dentro da minha casa passando por debaixo das minhas pernas, sentou-se na minha cadeira e ficou a me encarar, que gato mais doido eu pensei.
_Sai, passa, xó_ Eu disse com a porta aberta apontando para a rua, esperando ele sair, ele apenas continuou a me encarar com aqueles olhos vermelhos assustadores.
_Vamos, vai embora, eu não gosto de gatos, nada contra você, só que eu prefiro cães_ Eu disse para o gato, eu devia estar a beira da loucura pois podia jurar que ele me olhou de uma maneira não muito comum em gatos e também por estar falando com um gato, depois de um momento percebi que ele não iria sair, então desisti de o expulsar não sei bem o porque, simplesmente fechei a porta, peguei minha xicara de chá e me sentei na cadeira do outro lado da mesa, ele me encarando e eu encarando ele, em nenhum momento o bichano miou ou desviou o olhar, ele ficou lá na minha cadeira apenas parado me olhando com aqueles profundos olhos vermelhos de aparência maligna.
_O que você está olhando? Deve achar que eu sou doido por falar com você né? Pois saiba que não sou_ Mais ao mesmo tempo eu falava para mim mesmo, se não sou doido porque deixei ele ficar e ainda continuo falando com ele?
Esse gato era muito estranho, será que ele sentia fome, talvez fosse isso, fui até minha geladeira e enchi um pires de leite, coloquei no pé da cadeira, ele desceu, bebeu e assim que terminou lambeu os bigodes, voltou a subir na cadeira e a me encarar.
_Só pode ser brincadeira né, seu gato doido, muito bem está na hora de ir embora_ Fui até a porta e a abri, e para minha surpresa o gato se levantou e saiu, simples assim foi embora, agora eu estava livre dele, pelo resto do dia nenhuma batida na porta e nem vi mais aquele gato.
Na noite daquele mesmo dia de setembro sai para jantar com alguns amigos, bebemos um pouco, nos divertimos, ouvimos música em um barzinho e depois fomos para casa, cada um para a sua, viro esquina, entra esquina e quando entro na viela onde fica minha casa, quem cruza meu caminho? O maldito gato pardo e gordo, bem que minha mãe sempre dizia para nunca alimentar animais, senão eles nunca mais te deixam em paz, eu continuei caminhando em direção a minha casa e o gato continuou lá, bem no meio da viela me encarando enquanto eu me aproximava, quanto cheguei perto do gato, ele não me deixou passar, começou a caminhar de costas sem tirar os olhos de mim, será que estou mesmo louco eu pensei, um gato andando de costas, ele andava lentamente, fantasmagoricamente, só posso estar louco mesmo, resolvi ignorar aquele gato, passei sem olhar para ele, corri até a minha porta, peguei a chave e abri, entrei respirando fundo, estava a salvo daquele gato doido, estava cansado então me preparei para ir dormir, depois que me joguei na cama, droga sonhei com o maldito gato, só pode ser brincadeira, aqueles olhos, aqueles malditos olhos vermelhos, me encarando, me engolindo, me consumindo, acordei pingando de suor, senti algo escorrendo do meu nariz, era sangue, levantei e fui até o banheiro.
_Droga, mais que susto_ O maldito gato estava sentado em cima do vaso sanitário_ Como você entrou aqui? Por que fica me encarando? Está me julgando? Julgando meus pecados? Não é minha culpa se Lílian morreu daquela maneira, é verdade que se eu realmente quisesse se realmente tivesse tentado eu a teria salvo, mais não pude fazer isso, estava com raiva, ela havia me traído, estava apaixonada por outro, isso eu não podia aceitar, ela era minha, o amor da minha vida, havíamos feito promessas, promessas que não se quebram assim da noite para o dia, sim eu a deixei morrer.
Era isso que aquele gato tanto julgava com aqueles imensos olhos vermelhos demoníacos, no fundo pareciam um pouco, sim pareciam com os olhos de Lílian, mais não podia ser, ela devia ter voltado para me buscar, eu já sabia o que ela queria.

Aquela noite era fria, mais mesmo assim caminhei para o ponto de John, descalço e sem agasalho, o mesmo lugar onde eu havia permitido sua morte prematura, no mesmo lugar em que permiti que suas lembranças caíssem no esquecimento, o mesmo lugar em que minha doce Lílian teve seu fim, mais a verdade é que o fantasma de sua presença era constante até no perfume do meu travesseiro, foi com essa lembrança de seus longos cachos negros, de seus lindos olhos castanhos, de sua pele branca e do perfume, ah aquele perfume no meu travesseiro, foi com todas essas lembranças que me deixei cair pelo ponto de Jonh, um lugar de encontros românticos as escuras e de separações, e agora talvez de um reencontro de amores perdidos, de almas perdidas.

24 maio 2014

Os olhos de Elisa


"Josielma Ramos"

Havia algo que me hipnotizava nos olhos da minha vizinha, às vezes ela passava com suas amigas, vindo do colégio e eu apenas ficava a olhando, simplesmente não conseguia desviar o olhar, apenas quando o olhar de Elisa cruzava com o meu, era que eu despertava do meu transe e ficava totalmente envergonhado por ficar a olhando tão descaradamente, era sempre a mesma rotina, ela passava, vindo do colégio e eu moleque que era estava sempre sentado no muro de casa empinando pipa, mais quando ela passava meu mundo parava, eu não conseguia pensar mais em nada só nos olhos de Elisa.
Certo dia minha prima Anita enviou um convite de aniversário, eu não queria ir, mais quando cheguei à casa de Anita agradeci por minha mãe ter me obrigado a ir, Elisa era amiga de Anita e estava lá, eu ficava hipnotizado olhando ela dançar com suas amigas, eu não parava de olhá-la, para não ficar muito constrangedor decidi ir para a varanda da casa e ficar por lá até a hora de cortar o bolo, de repente ouvi uma voz falando comigo:
Você é primo da Anita?
Era ela, Elisa estava falando comigo pela primeira vez, aqueles olhos... Não consegui formular nenhuma palavra para responder a ela, então fiquei calado e apenas balancei a cabeça em sentido afirmativo.
Sempre te vejo me olhando, você tem algum problema comigo?
Balancei a cabeça em sentido negativo.
O gato comeu sua língua?
Desculpe é que não consigo parar de te olhar, você tem olhos lindos sabia?
Ah, obrigada  Disse Elisa meio sem graça com o elogio inesperado.
Desculpe se te constrangi Respondi envergonhado de ter abrido minha boca.
Não estou constrangida, só não esperava que elogiasse meus olhos, nunca é a primeira coisa que me dizem, é sempre “você é uma garota bonita”, mais fiquei feliz com seu elogio, obrigada.
Eu não consegui dizer mais nada, os olhos dela me hipnotizavam, me consumiam, eram enormes como os olhos de um gato e tão azuis como um oceano profundo, pareciam querer me afogar, ah se eu pudesse me afogar neles, beber de suas águas salgadas, nadar até o infinito dos olhos de Elisa, ela estava ali na minha frente, bastava que eu pulasse para mergulhar neles, mas enquanto ainda pensava se pulava ou não Anita chegou e nos puxou para dentro de casa para cantar parabéns.
Elisa acabou se mudando de nosso bairro, seus pais se divorciaram e ela foi morar com sua mãe em outra cidade, o pai continuou lá morando mesma casa sempre sozinho, Elisa nem vinha mais visita-lo, eu ouvi dizer que ele não aceitava as visitas dela, mas se é verdade ou não eu nunca soube, a única coisa que sei era que eu sentia falta de olhar nos olhos de Elisa, suas amigas ainda passavam vindo da escola e eu continuava ali em cima do muro empinando minhas pipas, mais meu olhar já não cruzava com o dela.
Anos se passaram, mas eu sempre me lembrava daquele olhar em que eu me afogaria se tivesse tido a oportunidade. Um dia cruzando a rua do terminal rodoviário uma garotinha estava correndo, devia estar com seus oito ou nove anos de idade, ela caiu bem aos meus pés e eu me abaixei para ajudar a se levantar.
—Obrigada moço Respondeu a garotinha.
Fiquei sem palavras quando aquela garota me olhou, seus olhos eram enormes e azuis, sim azuis como os de Elisa, pensando bem a garotinha me lembrava de Elisa, fiquei paralisado e confuso, quando uma mulher correu em nossa direção.
—Sophie querida, você está bem, já disse para não ficar correndo por ai, obrigada senhor—A mulher me disse sorrindo.
Eu não pude acreditar no que via, era Elisa, depois de todos aqueles anos sem ver aqueles olhos, os olhos com que eu sonhava toda noite, os olhos que eu desejava loucamente mergulhar.
—Elisa?
—Desculpe, nós nos conhecemos?
—Sim, mas isso foi há muito tempo, sou Antônio, primo da Anita.
—Eu me lembro de você, nossa faz muito tempo mesmo, Antônio essa é minha filha Sophie você tem filhos?
—Não, apesar de gostar muito de crianças, infelizmente nunca me casei, não encontrei o amor da minha vida.
—Entendo, eu pelo contrário encontrei o amor da minha vida, ou ao menos era isso o que eu imaginava, acabou não dando certo, mas me deixou um presente maravilhosoEla respondeu abraçando a filha.
—Sinto muito que não tenha dado certo, mas confesso que fico feliz de ouvir isso.
—Ah é mesmo? E por quê?
—Porque senão eu não poderia te convidar para tomar café comigo.
—Agora eu não posso, mas vou adorar colocar a conversa em dia, não nos vemos há tanto tempo.
Trocamos números de telefone naquele dia, eu não acreditava na sorte que eu tinha, quase 20 anos sem ver aqueles olhos, parecia que o destino nos queria juntos, no dia seguinte liguei para Elisa que aceitou meu convite para jantar, fomos a um restaurante italiano a algumas quadras do meu apartamento, conversamos sobre a nossa época de criança, lembramo-nos do aniversário de Anita em que conversamos pela primeira vez, ela não quis falar sobre o divórcio de seus pais, era um assunto que ainda a magoava e mais ainda por sua filha estar passando pela mesma situação. No fim da noite me ofereci para leva-la de volta para casa, mas não me lembro bem como e porque fomos parar no meu apartamento, minhas vagas lembranças são de que bebemos muito e ela acabou me beijando no meu sofá.
Acordei na manhã seguinte nu na minha cama, estava com uma ressaca terrível e uma imensa dor de cabeça, não lembrava quase nada da noite anterior, mas me lembrava de Elisa e de termos nos beijado, não me sentia mais tão obcecado por seus olhos, talvez eu quisesse tanto estar com ela que me apeguei à paz que sentia olhando em seus olhos, mas agora que a tinha por perto talvez tudo mudasse, talvez ficássemos juntos e eu poderia olhar para aqueles olhos todas as manhãs, teria dois pares de olhos azuis profundos para olhar, os de Elisa e os de Sophie.
Virei-me na cama e senti algo, o contorno de um corpo entre os lençóis, puxei-os um pouco e vi as belas pernas nuas de Elisa por baixo dos lençóis, ela ainda estava ali dormindo, então não tinha sido um sonho, me permiti um sorriso de felicidade, não queria acorda-la, então levantei e fui até minha cômoda procurar uma roupa e antes mesmo de abrir a gaveta fiquei curioso pelo fato do porta-joias da minha mãe estar ali, eu sempre o guardava no cofre em meu escritório, eu poderia simplesmente ter pego a pequena caixa e a guardado na minha gaveta, mas a curiosidade me fez a abrir, entrei em choque e o porta-joias caiu de minha mão deixando rolar um par perfeito de olhos azuis profundos, corri até a cama e olhei no rosto de Elisa, não havia mais azul, não havia mais oceano, apenas duas orbitas vazias, ela não dormia, estava morta.

10 maio 2014

O fim chega...

Escrevi esse conto a pouco tempo e fiquei muito satisfeita quando terminei de escreve-lo, sempre amei as histórias de terror de Edgar Allan Poe, e inspirada por ele decidi escrever a minha primeira, nada digno de chegar aos pés do brilhantismo de Poe, mas para uma primeira tentativa fiquei muito feliz, então espero que agrade.


Ele chegou com aquele mesmo humor de como quando andava bebendo, abriu a porta cambaleando e derrubando tudo em seu caminho, eu corri para meu quarto e me escondi, escutei toda discussão e minha mãe chorar, ele dizia que ela estava velha e gorda, que não aguentava mais olhar para ela, falou que sua comida era uma droga e cuspiu no rosto dela, eu me senti impotente por sempre assistir a tudo aquilo e não poder fazer nada, ela era minha mãe e sempre me protegia, porque eu não conseguia fazer o mesmo? Naquela noite quando ela veio me dar um beijo antes de dormir eu pude enxergar seus olhos vermelhos de tanto chorar e a marca da mão dele em seu rosto, nunca consegui entender porque ele fazia aquilo com ela, afinal de contas ela trabalhava pra ajudar em casa, cuidava de mim, da casa, lavava as roupas dele, cozinhava pra ele, amava ele, mais tudo só parecia piorar e eu sempre impotente, uma criança o que eu poderia fazer? Eu tinha medo de ficar no mesmo cômodo com ele.
Um dia eu estava na mesa do café da manhã antes de ir para o colégio, ele entrou na cozinha com a cara de ressaca de sempre e tropeçou na minha mochila que eu tinha jogado a um canto quanto entrei na cozinha, foi tudo que precisou para ele explodir comigo, me arrastou pelo braço me derrubando da cadeira e me chamando de inútil, que era por isso que meu pai havia sumido no mundo e agora era ele que carregava o fardo, ele me bateu, me deu vários tapas no rosto, eu sentia o gosto do sangue nos meus lábios, naquele momento senti algo novo dentro de mim, talvez o fato dele estar sóbrio daquela vez tenha me deixado com mais raiva e acumulando com o que minha mãe vinha passando na mão dele eu não pude suportar, minha mãe não pode fazer nada perto dele era pequena e indefesa e ele lhe deu um tapa quando tentou se aproximar para separar ele de mim, depois de um breve momento torturante ele olhou para mim como se estivesse arrependido do que fez, mais não se desculpou apenas saiu batendo a porta, minha mãe correu até mim e me abraçou, ouvimos o motor do carro sendo ligado, ele saiu cantando pneu.
Enquanto minha mãe cuidava dos meus muitos machucados ela tentava dar uma desculpa para o fato de ele agir daquela maneira, ela dizia que ele se sentia frustrado por não ter um emprego melhor, por ela ganhar mais que ele e pelo fato dela chegar às vezes tão cansada do trabalho e não ter tempo para dar o carinho e atenção que ele merece, eu nunca concordei com essa linha de raciocínio da minha mãe, nunca achei que era culpa dela ele ser assim, ele não tinha um emprego melhor porque era um acomodado, alem do dinheiro dele gastava o da minha mãe também e sempre com bebidas, se tudo que minha mãe fazia era por mim e por ele como ela podia dizer que não dava o carinho e atenção que ele merecia, em minha opinião nem morar no mesmo planeta que ela ele merecia, mais era tudo complicado demais e minha mãe não queria me escutar, talvez estivesse cega de amor ou tivesse medo demais para desafiar ele, então eu decidi tomar uma decisão pelo bem dela.
Uma noite minha mãe ligou avisando que ficaria de plantão no hospital e que não era para esperar por ela, pensei que aquela seria a noite perfeita para por um fim naquele sofrimento, subi até o andar de cima e fui até o banheiro, liguei as torneiras, deixei a banheira encher e esperei.
Depois da banheira encher e eu fechar as torneiras escutei o barulho do carro dele chegando, desci as escadas correndo e fui para a cozinha, ele entrou perguntando sobre minha mãe e eu avisei que ela não viria para casa pois estava de plantão, ele abriu a geladeira e pegou uma lata de cerveja, dava pra ver que estava bêbado e mesmo assim continuava a beber, perguntei se ele sentia fome e ele disse que não que queria apenas dormir, falei que tinha preparado um banho de banheira pra mim, mas que ele podia tomar se quisesse antes de dormir, já esperava receber um tapa, mas para meu espanto ele concordou comigo dizendo que dormiria mais sossegado de banho tomado, ele mal conseguia subir as escadas sem tropeçar a cada degrau, tentei ajudá-lo a subir mais ele era pesado demais, depois de alguns minutos com um pouco de esforço chegamos ao banheiro, ele estava tão bêbado que nem suspeitou da banheira que já o esperava cheia, eu sai do banheiro para ele se despir, ouvi o barulho de água caindo e percebi que ele já estava dentro dela, perguntei do outro lado da porta se ele queria mais alguma coisa, talvez um uísque, ele disse que sim, desci até a cozinha e peguei um copo e a garrafa, voltei correndo escada acima e bati na porta perguntando se podia entrar, ele me respondeu que sim, e me pediu para encher o copo e deixar a garrafa lá, entreguei o copo para ele que virou de uma só vez e me pediu para encher mais um copo e depois sair de lá, enchi o segundo copo, mal ele virou o copo adormeceu de tão bêbado, era a minha deixa, o momento que aguardei a noite toda, arregacei as mangas da minha blusa, apoiei minhas mãos em sua cabeça e afundei devagar até ele ficar submerso, ele acordou e tentou levantar, mais estava fraco depois de ter bebido tanto, ele continuou lutando o que pareceu horas, até que se rendeu e parou de respirar, estava morto, eu sentia como se uma corrente estivesse se partindo e eu estivesse livre finalmente, ali mesmo no banheiro troquei minhas roupas molhadas por roupas secas, corri até a lavanderia e joguei as roupas molhadas dentro da máquina de lavar junto com outras tantas, depois voltei ao meu quarto, deitei em minha cama e dormi.
Nem notei que já havia amanhecido, só quando ouvi os gritos da minha mãe foi que percebi o que estava acontecendo, corri até o banheiro e ela estava de pé em frente à banheira chorando e gritando, eu a abracei e disse para ela se acalmar que tudo ficaria bem, levei-a até a sala, ela ligou para o hospital desesperada pedindo para mandarem uma ambulância que seu marido estava morto, minutos depois uma ambulância chegou acompanhada de um carro de policia, fizeram todos os procedimentos com o corpo enquanto o policial fazia várias perguntas, minha mãe disse que havia passado a noite em plantão no hospital, e que estava apenas eu e ele em casa, o policial me perguntou se eu não tinha ouvido nada, eu contei a eles o que tinha acontecido na noite anterior, disse que ele chegou muito bêbado em casa e me pediu um copo e uma garrafa de uísque e me mandou levar no banheiro, disse que obedeci porque se não fizesse o que ele mandava ele me batia e mostrei os machucados que ainda estavam cicatrizando em meu rosto, e que depois de entregar o uísque ele gritou para eu sair do banheiro e ir pro meu quarto e não sair de lá porque ele não queria mais olhar para a minha cara, e eu fiz tudo como ele pediu.
O policial informou que depois que o legista examinasse o corpo ele voltava com mais noticias, e assim ele fez alguns dias depois, voltou dizendo que a autopsia mostrava um alto nível de álcool no corpo e que pelo que parecia tudo não passava de um trágico acidente doméstico, eu estava livre e jamais desconfiariam de uma criança que estava dormindo no momento do incidente.
Não demoraram muito para liberar o corpo para o velório, minha mãe estava muito abalada mais cuidou de cada detalhe, fez questão de escolher um belo caixão e ligar para todos os conhecidos, amigos e familiares, eu não tinha conversado com minha mãe desde o ocorrido e não sabia o que ela pensava ou como estava se sentindo, pois desde o dia que ela encontrou o corpo no banheiro eu não tinha mais a visto chorar e nem demonstrar nenhum tipo de emoção, boa ou ruim.
O velório ocorreu de maneira calma e com um clima estranho no ar, as pessoas vinham dar os pêsames para mim e minha mãe, ela ficava lá do lado do caixão sem responder a ninguém, apenas parada olhando para o nada sem demonstrar reação, acompanhou o cortejo fúnebre até dentro do cemitério, ela parecia uma morta viva, ele foi enterrado, os coveiros cobriram o caixão, nem assim ela reagiu.
Após o enterro fomos para casa, ela subiu direto ao quarto e se trancou lá dentro, eu estava começando a ficar preocupado com ela, com medo dela fazer alguma besteira, bati na porta e perguntei se ela estava bem e pra minha surpresa ela me respondeu, com voz rouca ela disse que apenas precisava dormir um pouco, resolvi dar um tempo pra ela, fui tomar um banho, mais usei o banheiro de baixo, estava evitando o banheiro do andar de cima desde o dia da morte.
Entrei no box e liguei o chuveiro, era tão bom sentir a água quente correndo pelo meu corpo, o chuveiro estava tão quente que uma névoa se formou no ar, desliguei o chuveiro, peguei uma toalha e sai do box, quando vi escrito no espelho suado as palavras EU SEI! Fiquei assustado, quem teria escrito aquilo? Só estava eu e minha mãe na casa e não tinha como ela saber de nada, com a toalha limpei o espelho apressadamente e corri para o meu quarto, me deitei na cama, eu estava tão cansado depois daquele dia cheio que adormeci no mesmo instante, sonhei com meu padrasto, ele estava em pé na minha frente com a água pingando do seu corpo para o chão do meu quarto apontando para mim e dizendo
_Eu sei! Eu sei! Eu sei! EU SEEEEEEEEIIIII...
Ele se desmanchou como se fosse feito de água e se derramou por todo o meu quarto começando a me afogar, acordei completamente suado como se realmente estivesse sendo afogado, olhei para o relógio e já eram duas horas da manhã, fui ver se minha mãe estava bem, mas ela não estava no quarto, desci as escadas e as luzes da cozinha estavam acessas, minha mãe estava sentada na mesa com um olhar apático e um copo de uísque na mão, o que achei estranho, pois ela não bebia, ela olhou para mim e pediu que eu me sentasse com ela, obedeci, ela finalmente desabafou e me contou tudo que sentia, ela me disse que era culpa dela ele estar morto, que ela havia desejado aquilo, que queria se sentir triste pela morte dele, pois o tinha amado muito, mais que no fundo ela estava feliz, eu não podia culpá-la por se sentir feliz ele era um babaca, ela disse que não conseguia dormir que sentia o peso pelo que havia desejado naquele momento eu comecei a me sentir culpado por ter sido quem causou o sentimento de culpa na única pessoa que queria proteger, eu disse para ela que só se sentia assim por culpa do luto, que com algumas semanas esse sentimento passaria e que tudo voltaria ao normal, ela balançou a cabeça concordando.
Nas semanas que se passaram minha mãe pareceu ter uma considerável melhora de humor, estava mais bonita, havia perdido peso, estava se cuidando mais e praticamente já tinha ou estava tentando esquecer o “acidente”, já pra mim não posso dizer que as coisas melhoraram, o maldito me assombrava em meus sonhos, coisas estranhas aconteciam pela casa, não sei se era o medo da policia descobrir algo que estava me fazendo imaginar coisas, ou se era o medo do fantasma dele estar assombrando a casa, todas as vezes que eu dormia acordava gritando, aonde eu ia tinha água se espalhando pelo chão, eu mal conseguia entra no banheiro com medo de ver algo, e toda vez que entrava via.
O medo e a culpa me consumiam pouco a pouco, um dia não aguentando mais tanto pesadelos e visões me assombrando, corri para o banheiro em busca dos calmantes da minha mãe para ver se eu conseguiria dormir em paz, foi uma coisa de momento, havia me esquecido que estava evitando o banheiro do andar de cima, e quando entrei me deparei com algo que eu não podia imaginar, a banheira estava cheia de água, mais minha mãe não estava em casa, quem a havia enchido, foi quando ouvi uma voz longe sussurrando.
_Entre!
Fiquei totalmente apavorado, mais minhas pernas não se moviam, eu não conseguia tirar os olhos da banheira, era quase hipnótico, depois de um longo tempo entre o ser ou não, fazer ou não, minhas pernas se moveram lentamente em direção a banheira, entrei uma perna de cada vez e sentei-me dentro da banheira esperando eu não sabia bem o que, de repente senti algo empurrando minha cabeça, mais não havia mais ninguém ali, a mão ainda fazia pressão na minha cabeça enquanto eu lutava tentando me desvencilhar, mais meus esforços eram impossíveis, fosse o que fosse que que estivesse tentando me afogar, era mais forte do que eu, comecei a ficar mais fraco e sentir a água entrando em meus pulmões, não conseguia mais respirar, vi pela última vez o rosto da minha mãe chorando sobre mim, a pessoa que eu mais quis bem no mundo.

03 setembro 2013

A menina

"Josielma Ramos"


Menina fugiu!
Com medo de tudo, como medo daquele mundo, sem querer nada daquilo, sim ela fugiu! Pra não lavar louça, pra não lavar roupa, com medo de limpar a casa.
Queria ser mais que aquilo, e sempre dizia:
_Não nasci para isso, eu vou ser estrela, vou pra cidade grande, vou ser artista, quero ver meu nome brilhar.
Riam da menina, que cansada daquela situação, tomou uma decisão:
_Meu destino não é aqui, essa noite eu vou fugir.
Esperando todos dormirem, silenciosamente foi pegando tudo que achava que precisaria poucas roupas, o dinheiro que vinha guardando:
_Não vou levar meu celular.
Encheu a mochila e junto colocou o porta-retrato com a foto de seus pais, desceu devagarzinho cada degrau sem fazer nenhum barulho.
Assim que saiu pela porta, respirou o ar da madrugada, cheirava a tão esperada liberdade, ela sorria e chorava:
_agora não tem mais volta, vou atrás dos meus sonhos.
Dormiu no banco frio da rodoviária, esperando amanhecer, pensando:
_Logo cedo pego o primeiro ônibus que vai pra São Paulo.
Amanheceu e a menina acordou com o barulho do movimento do povo e a fumaça do ônibus em seu rosto, sua barriga roncou:
_Que fome! Mais ainda não posso gastar nenhum centavo, tenho que economizar pra quando chegar lá.
Arrependida de não ter passado na cozinha antes de fugir, ela foi sorrindo comprar a passagem para a sua liberdade, tinha apenas R$600,00 reais no bolso e a passagem custava R$350,00 pois São Paulo estava a dois dias de viagem.
Entrou no ônibus e pra sua surpresa um rapaz muito lindo sentou ao seu lado, estava bem vestido, ele sorriu pra ela que sentiu o rosto corar:
_Devo estar igual um pimentão, que vergonha_ Ela pensou.
Nos dois dias de viagem o rapaz se aproximou, ficaram amigos, ele foi doce e gentil, explicou que morava em Sampa e tinha ido viajar com uns amigos, mais teve que voltar mais cedo e não tinha conseguido passagem de avião em cima da hora:
_Ainda bem por que assim pude conhecer você_ Ele falou pra ela, que sentiu o rosto corar mais uma vez.
Ela nunca teve contato assim com nenhum outro rapaz, logo percebeu que estava encantada por ele:
_Será isso que chamam amor a primeira vista? Acho que estou amando.
Ao fim do segundo dia de viagem, ele a beijou, era o primeiro beijo dela:
_Ele sente o mesmo que eu_ Ela sorriu.
Ele entregou seu número de telefone pra ela, e disse que podia ligar quando quisesse, ela guardou o número no bolso da jaqueta, o papel bem dobradinho, e se colocou a caminhar, após o beijo de despedida.
_E agora pra onde eu vou?
Na presa de fugir de casa pra ser famosa não pensou bem por onde começaria, tinha gasto um pouco do dinheiro na parada da viagem, pois não havia como ficar dois dias sem comer, e agora só lhe restava R$190, 00 reais, não conhecia ninguém e estava só, pra onde ir, procurou uma Pensão, pagou por uma noite o que praticamente lhe custou mais da metade do que lhe tinha sobrado, mais era bom, pelo menos por uma noite teria uma cama pra dormir e um chuveiro quente, no dia seguinte daria um jeito de mudar sua vida para sempre.
Na manhã seguinte, acordou cedo tomou um banho, escovou os cabelos, vestiu a melhor roupa que havia trazido na mochila, ela sabia que era bonita, e conseguia tudo o que queria sempre, dessa vez não seria diferente.
Ao sair na rua percebendo que não tinha idéia de pra onde ir e sem dinheiro o suficiente para mais uma noite na pensão, decidiu usar o número que o rapaz lhe dado, ele atendeu o telefone e parecia feliz ao perceber que era ela, depois de lhe explicar tudo o que havia lhe acontecido ele disse:
_Na rua você não fica, vem pra minha casa, onde você está? Vou lhe buscar!
Ela feliz que agora teria ajuda de alguém, informou o local, duas horas depois ele apareceu no carro mais lindo que ela já tinha visto, entrou sorrindo e ele lhe disse:
_Você está linda.
Ela agradeceu com um beijo, ele a levou para sua casa, a menina ficou maravilhada, nunca havia visto uma casa tão linda e tão grande em sua vida, só na televisão.
_Uau! Cabe cinco casas ai dentro_ Ela disse fazendo ele rir.
Ao chegar na entrada o rapaz pegou a mochila dela e disse que mostraria o quarto onde poderia ficar, ela perguntou se seus pais não se importaria de a receber como hospede, mais ele disse que estavam viajando, e que antes deles voltarem lhe arranjaria um lugar para morar, mostrou o quarto e uma empregada chegou alguns minutos depois com uma bandeja muito bem feita de lanches e frutas.
A menina maravilhada com o lugar, tinha piscina, quadra de tênis, era um sonho , era a vida que ela queria, o que ela merecia, o lugar onde sempre deveria estar, mas o que ela não sabia é que a noite o rapaz receberia seus amigos, assim sendo quando a noite chegou os dois estavam sozinhos na sala, ele a beijou, ela sorriu, ele começou a despi-la, de inicio ela se recusou, mais aos poucos foi cedendo, ele falava palavras doces, tão lindas.
_Ele me ama_ Ela pensava
Foi se sentindo mais a vontade, se tinha que ter a sua primeira vez, por que não com a pessoa por quem estava apaixonada, deslumbrada.
Já estava totalmente despida, ele a beijava e a tocava, se sentia descontrolada, sentia um arrepio intenso com o corpo dele contra o seu, até que o sentiu entrando com violência, ela gemeu alto sentindo a dor que aos poucos foi ficando mais e mais gostosa, ela estava em êxtase, até que sentiu o corpo todo dele estremecer, depois ele se deitou ao seu lado a beijando, após alguns minutos ela subiu para tomar um banho, se vestiu, estava radiante, se sentia mulher, sabia que aquele era o homem da sua vida.
A campainha tocou no andar de baixo, ela ouviu vozes e em seguida passos em direção ao seu quarto, o rapaz entrou acompanhado de mais dois rapazes, ele os apresentou como seus melhores amigos, ela sorriu tentando ser simpática e se apresentou educadamente, logo após ele disse:
_São meus amigos deste criança, sempre dividimos tudo, e dessa vez não será diferente_ Ele disse enfiando a mão por dentro do decote de sua blusa, ela puxou a mão dele pedindo para parar.
_O que você está fazendo?
_Partilhando_ Ele respondeu e os amigos riram.
Eles se aproximaram dela, que tentou correr, mais foi inútil, pois tropeçou no tapete e caiu, arrancaram suas roupas, seguraram seus braços, ela tentou lutar, fechar as pernas, mais era impossível, três contra uma, mais fortes que ela, tentou chutá-los, morde-los, mais a seguraram, colocaram-na na cama, amarraram seus braços e pernas, e um de cada vez a abusou, de todas as formas inimagináveis e vulgares, ela chorava pedindo para que parassem, bateram nela, diziam coisas terríveis a chamaram de prostituta, depois de um tempo não tinha mais forças para lutar, não adiantava, por mais que tentasse só se machucava mais, já sentia algo morrendo dentro de si, quando terminaram, desamarram ela, que nem se moveu, o rapaz tão lindo, com aquela cara de anjo, por quem estava apaixonada, lhe olhou com certo desprezo e nojo e disse:
_Pega suas coisa e some daqui vadia, pensou mesmo que eu ia me apaixonar por você?_ Disse cuspindo na cara dela e saiu com os amigos atrás rindo.
Ela tirou forças de onde não tinha para se levantar, pois seu corpo todo doía, pegou sua mochila que estava jogada no canto, vestiu a primeira coisa que encontrou dentro dela mais se esqueceu dos sapatos, queria sair o mais rápido daquela casa, tentou sair sem ser vista, desceu as escadas, eles estavam jogando vídeo game como se nada tivesse acontecido.
Ela não sabia mais o que pensar o que tinha feito para merecer aquilo, que Deus cruel faria isso, tudo que ela queria apenas era ser rica, famosa e feliz, e tudo que tinha conseguido foi a humilhação, desprezo e violação de seu corpo, sentia vontade de morrer, saiu o mais rápido que seu corpo dolorido lhe permitia, sem rumo andou por algumas horas, seus pés estavam em carne viva, mais ela nem sentia mais a dor, pois perder a alma doía mais, havia sido enganada, sua felicidade, seus sonhos, seus planos haviam se esvaído como fumaça entre os dedos, seu mundo estava morto.
Não podia voltar para casa, pois estava sem dinheiro, e não podia ligar para os pais, pois o que diria a eles? Se voltasse todos iriam rir dela, iam chamá-la de tola, burra, que gente pobre não deveria sonhar,pois foi isso que ouviu a vida inteira, pois foi isso que a tinha obrigado a fugir, provar que podia sonhar sim, mais e agora? Tudo que sonhar lhe causou foi a sua perdição, chegou a uma ponte e lá se debruçou olhando as águas calmas que corriam lá embaixo:
_Queria que minha alma estivesse calma como essas águas!_ Ela pensou antes de subir na barra de proteção e pular.
Na manhã seguinte quando seu corpo foi achado, ela havia virado noticia em todos os jornais e na televisão, tinha conseguido em fim sua tão sonhada fama.

Meu primeiro Vlog | Treino da fé | Corrida de rua

Na sexta-feria santa rolou o treino da fé que é uma corrida de rua que vai de Perus até Pirapora do bom Jesus, como eu sou a pessoa mais at...